domingo, 5 de abril de 2015

CAPA DA REVISTA ESCOLA NOVA

Lançada na quarta-feira (11), a edição de fevereiro de NOVA ESCOLA convida os educadores ao debate sobre as questões de gênero e sexualidade. Para isso, a revista estampou na capa uma foto do britânico Romeo Clarke, 5 anos, vestido com uma fantasia de princesa e uma provocação: "Vamos falar sobre ele?". A reportagem traz, com exclusividade, o download do Escola sem Homofobia, material didático que ficou conhecido como "kit gay" e teve sua distribuição suspensa pelo governo federal em 2011.

Até a manhã desta sexta-feira, o texto, hospedado no site de NOVA ESCOLA, recebeu mais de 89 mil visitas. A nota com link para download foi vista mais de 13 mil vezes. Já a capa, divulgada no Facebook, chegou a 3,3 milhões de visualizações, 23 mil curtidas, 11 mil compartilhamentos e quase 2 mil comentários. O alcance já é 31 vezes maior que o do lançamento da capa anterior, da edição dezembro 2014/janeiro 2015, que atingiu mais de 107 mil pessoas na rede social.

Beto de Jesus, secretário para América Latina e Caribe da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, pessoas Trans e Intersex, comemorou o sucesso da reportagem e a divulgação do kit Escola sem Homofobia: "Nós não poderíamos deixar de disponibilizar esse material para a população, para que os professores discutam e reproduzam. Nossa intenção é combater toda forma de violência e discriminação. Foi no momento certo, acompanhando uma capa importante da revista, e nós ficamos felizes com a repercussão".

Os comentários nas redes sociais demonstraram que as questões de gênero rendem debates acalorados. "É um tema muito delicado e complicado de lidar em sala de aula. Carece sim de muitas leituras e estudos, pois qualquer atitude dos profissionais da escola e famílias sem o devido embasamento pode ser extremamente danoso para a criança", opinou Júlio Costa no Facebook. Já Bia Melo falou da necessidade de debate: "Os comentários que a gente lê aqui reforçam a importância da discussão do assunto, de uma capa como essa. Há tanta desinformação e tanto preconceito que chega a ser preocupante". Gilvania Ferreira comentou: "O olhar humano é malicioso e sempre deturpa as coisas. Se ele se sente bem com roupas ditas femininas, quem é que pode dizer para não usá-las? Assim como as roupas, os brinquedos também são criados com a intenção de diferenciação entre os sexos. Portanto, se estamos educando crianças livres em suas escolhas, não podemos determinar com que tipo de brinquedo podem brincar".

Muitos leitores discordaram da abordagem da revista. Juan Tutiya comentou no Facebook: "Não ao kit gay nas escolas, não à feminilização dos que nascem com o sexo masculino e não à masculinização das que nascem com o sexo feminino, cada um com seu papel". Já a internauta Patrícia Nunes defendeu que isso não é assunto da escola: "Professor não é pai e mãe, professor ensina, os pais são responsáveis por valores éticos, morais, religiosos, enquanto os filhos são menores de idade (...) com um aluno assim, o professor deve simplesmente contatar os pais e relatar o ocorrido para que os mesmos, como responsáveis legais, decidam o que fazer".

A capa também gerou comentários no Instagram. Sylvia Assis escreveu: "Vamos falar sobre ele? Vamos ser maduros pra isso? Não vamos permitir que essas crianças sejam expulsas da escola, da família e da sociedade?".Reprodução da capa de NOVA ESCOLA
Nasceu com vagina e vestia roupas identificadas como femininas.
Através de procedimento cirúrgico construiu em seu corpo um pênis.
Veste roupas que identificam como homem.
Relaciona-se sexualmente com homens, 

com pênis e que vestem roupas identificadas como masculinas.
O mundo e o conhecimento que herdamos, em seu discurso normativo, tinha/tem tudo bem definido, como ordem natural, inclusive divina. As reivindicações dos movimentos identitários das últimas décadas têm questionado muitas destas certezas, tanto em termos políticos quanto de construção do conhecimento na academia. O objetivo deste artigo é mostrar algumas destas “desconstruções” sobre sexo, gênero e sexualidade, realizadas no âmbito dos Estudos Feministas, de Gênero, sobre Masculinidade, dos Estudos Gays e Lésbicos e da Teoria Queer. Mais do que isto, mostrar como as reflexões sobre gênero não podem estar desconectadas das reflexões sobre sexualidade, e vice-versa. O processo de construção de identidade sexual e de gênero expressa na epígrafe acima revela justamente a insuficiência das categorias identitárias disponíveis, desestabiliza noções fixas e relações naturais entre sexo, gênero e sexualidade, e aponta para a limitação de discursos assimilacionistas.
Algumas definições básicas
Antes de entrar na discussão sobre a articulação das categorias com as quais vamos trabalhar, é importante defini-las para que haja uma compreensão comum sobre a forma como elas serão utilizadas e o que se entende por cada uma delas. Há uma vasta bibliografia que discute e define estes conceitos, mas, correndo o risco de não esgotar os argumentos e explicações, apresentamos definições próprias que subsidiarão a discussão.
- sexo refere-se ao dado físico-biológico, marcado pela presença de aparelho genital e outras características fisiológicas que diferenciam os seres humanos como machos e fêmeas; além destas, a partir de pesquisas recentes, também o código genético precisa ser considerado na constituição do sexo, o que complexifica as definições neste âmbito, cujo principal exemplo são as inúmeras formas de intersexualidade;
- gênero refere-se ao dado social, formado por um aparato de regras e padrões de construção corporal e comportamento que configuram a identidade social das pessoas a partir do substrato físico-biológico, do que resultam identificações como masculino e feminino, bem como as múltiplas variantes que desviam da norma, como androginia, travestismo, efeminação ou masculinização, por exemplo;
- sexualidade refere-se ao dado sexual, que se define pelas práticas erótico-sexuais nas quais as pessoas se envolvem, bem como pelo desejo e atração que leva a sua expressão (ou não) através de determinadas práticas. Esse dado também é chamado por alguns/as de “orientação sexual”, e comumente classifica as pessoas em “heterossexuais”, “homossexuais” e “bissexuais”.
Do Feminismo à Teoria Queer
Guacira Lopes Louro, em sua Conferência sobre a relação entre os Estudos Feministas, os Estudos Gays e Lésbicos e a Teoria Queer no II Congresso da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura afirmou que:
... os estudos feministas, os estudos gays e lésbicos e a teoria queer são campos teóricos e políticos marcados por afinidades e alianças e, ao mesmo tempo, atravessados por debates e divergências perturbadoras. 1
Na década de 70, o mundo ocidental presenciou uma efervescência de movimentos políticos contestatórios dostatus quo branco, rico, masculino e heterossexual. Dois destes movimentos que interessam de maneira especial aqui foram a Segunda Onda do Movimento Feminista e a organização do moderno Movimento Homossexual (de maneira simbólica instaurado a partir de 1969 com a Revolta de Stonewall). Concomitantemente a estes movimentos políticos desenvolveram-se os campos teóricos definidos como Feminismo e Estudos Gays e Lésbicos.
Os estudos feministas, ao incorporarem as categorias de gênero, forneceram um instrumental capaz de questionar, nas diversas áreas do conhecimento e em todas as esferas da vida, os padrões patriarcais que definem o que significa ser “mulher” (e conseqüentemente colocaram em questão o que significa ser “homem”, embora esta questão apenas muito recentemente tenha se tornado objeto de reflexão por parte dos homens). A desconstrução a partir destas categorias mostrou que, tanto homens quanto mulheres, aprendem a ser e viver como tal a partir de um complexo aparato de normas e regras de comportamento que definem os papéis de gênero. Desta forma, permitiram visualizar as conexões estabelecidas entre sexo (o dado físico-biológico) e gênero (o dado social) sem, muitas vezes, questionar a relação natural estabelecida entre esses dois e o dado sexual (a sexualidade), mantendo uma suposta orientação lógica do desejo para aquilo que se chama de “sexo oposto”. Assim, muitas vezes, não questionaram a estrutura heterocêntrica da sociedade ocidental, ignorando que os dados físico-biológico e social são atualizados nos corpos desejantes e excluindo uma multiplicidade de possibilidades de vivência da sexualidade localizadas fora dos padrões heteronormativos.
Os estudos gays e lésbicos utilizaram-se das categorias de gênero, mas desenvolveram seus estudos notadamente na área da sexualidade. Com o aprofundamento destes estudos e também com o questionamento advindo dos movimentos políticos, categorias como “homossexual”, “gay” e “lésbica”, mostraram-se demasiadamente limitantes para falar da diversidade de identidades sexuais construídas e vividas por integrantes destes movimentos. Estas categorias, muitas vezes, acabavam por essencializar uma identidade homossexual facilmente assimilada dentro do sistema patriarcal e heterocêntrico, mantendo-o intacto. Como afirma T. Spargo:
Bissexualidade, transsexualidade, sadomasoquismo e identificação transgênero todas implicitamente contestaram o ideal inclusivo da política assimilacionista. A incompatibilidade pode ser parcialmente interpretada como respeitabilidade. Se você quer ser uma parte igual de um mundo heterossexual provando quão comum, quão exatamente-como-você (mas talvez um pouquinho mais sensível ou artístico) você é, simplesmente não vai dar para ostentar os seus desejos e relações mais excessivas, transgressivas. 2
Assim, no final da década de 80 e início da década de 90 começou-se a falar em Teoria Queer. “Queer” é um termo da língua inglesa, traduzido comumente como “estranho, esquisito, singular, excêntrico”. A partir desta acepção, o termo também é empregado, especialmente na América do Norte, para pessoas que não correspondem ao padrão heterossexual da vivência da sexualidade ou do papel de gênero correspondente ao seu sexo. Neste sentido, a apropriação do termo pela corrente acadêmica que se denomina Teoria Queer, como afirmam A. Stein e K. Plummer “é um jogo político na palavra queer, por longo tempo identificada como ‘homossexualidade’, e a mais nova série de ‘afirmações reversas’ na qual as categorias construídas através da medicalização são usadas contra elas mesmas”. 3
A proposta central da Teoria Queer é romper com os dualismos (de maneira especial a oposição entre homo e heterossexual), desestabilizando uma estrutura social heterocentrada, construída ao redor do paradigma heterossexual. Assim, como afirma E. K. Sedgwick, uma das precursoras da Teoria Queer:
[A Teoria Queer refere-se a] uma trama aberta de possibilidades, brechas, sobreposições, dissonâncias e ressonâncias, lapsos e excessos de significado quando os elementos constituintes do gênero de alguém, da sexualidade de alguém não são feitos (ou não podem ser feitos) para significar monoliticamente. 4
Neste campo teórico são inegáveis as contribuições dos estudos sociais, históricos, especialmente aqueles realizados no âmbito da teoria feminista. Assim como Eve Kosovski Sedgwick, Teresa de Lauretis e Judith Butler, precursoras da Teoria Queer, os estudos de muitas outras feministas serviram de inspiração e base para os/as teóricos/as que agora se colocam sob a categoria queer. 5 Os estudos queer, no entanto, deram um passo além das análises de gênero, tornando a sexualidade um assunto de relevância acadêmica, não só nos discursos e estudos da medicina e psicologia, mas em áreas tão diversas quanto economia, sociologia, antropologia, política e religião. Através destes estudos quer-se mostrar como a vida social-política-econômica-cultural-religiosa está organizada a partir de um padrão heterocêntrico, no qual a maioria das pessoas não se encaixam, propondo uma outra alternativa a partir da experiência de vivências não-heterossexuais.
No contexto acadêmico brasileiro esta reflexão permanece um tanto invizibilizada. Embora inúmeros estudos estejam sendo desenvolvidos nesta área, utilizando a Teoria Queer como referencial teórico, sua popularização na academia continua sendo um desafio. Além dos estudos sobre a sexualidade brasileira que poderiam ser qualificados sob esta ótica 6, um exemplo da existência de uma pesquisa queer na academia brasileira é a articulação da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH) e alguns núcleos de pesquisa que têm se ocupado com a temática. 7 Conforme G. L. Louro:
A força e a graça de lidar com as questões levantadas pelas feministas, pelos gays e lésbicas ou queer reside, justamente aí, nessa disposição de ser continuamente subversivo, nesta tendência a desobedecer. 8
Quando sexo, gênero e sexualidade se des-encontram
Um dos temas que tem ganhado atenção recentemente no campo dos estudos de gênero é a questão da masculinidade. Embora seja um tema bastante recente e não muito pesquisado, há um grande número de trabalhos e publicações nesta área nos últimos tempos, sejam elas acadêmicas ou de cunho popular-consumista. Isto se deve à popularização do que se convencionou chamar “a crise do macho”. Esta expressão é usada para falar do desconforto de muitos homens diante das mudanças ocorridas desde a década de 70, especialmente com o avanço e visibilidade do Movimento Feminista e do Movimento Homossexual. 9
Os estudos sobre masculinidade realizados dentro das categorias de gênero têm contribuído muito para a desconstrução de um modelo de masculinidade hegemônico e proposto e valorizado novas formas de ser homem. No entanto, muitas publicações, especialmente aquelas voltadas para o consumo mais popular, mas também algumas realizadas em círculos acadêmicos, na tentativa de desconstrução do papel do “macho” limitam-se à análise da sua relação com as mulheres e pressupõem a sexualidade heterossexual. Raramente se mencionam formas “alternativas” não-heterossexuais de masculinidade e suas contribuições para este debate.
Estas reflexões, de modo geral, ignoram as discussões realizadas no âmbito dos estudos gays e lésbicos e da teoria queer. Preservam uma dicotomia entre homens e mulheres, entre masculino e feminino, geralmente fundamentadas nas categorias jungianas animus e anima para falar de elementos masculinos e femininos presentes em homens e mulheres. L. Boff, por exemplo, assim define o princípio feminino:
O feminino no homem e na mulher é aquele momento de mistério, de integralidade, de profundidade, de capacidade de pensar com o próprio corpo, decifrar as mensagens escondidas sob sinais e símbolos, de interioridade, de sentimento de pertença a um todo maior, de guardar no coração, de poder gerador e nutridor, de vitalidade e espiritualidade. 10
Se estes princípios se fazem presentes nos seres humanos diferentemente através de características de comportamento específicas, como se justifica a construção dualista masculino/feminino? A partir destes princípios definem-se características sobre o que corresponde ao homem e à mulher, e a necessidade de valorização do princípio feminino nos homens. Isso não significa que nas reflexões sobre o papel social de homens e a necessidade de desconstrução o tema da sexualidade não esteja presente. Ele está. Até porque o que significa ser homem está ligado diretamente a um tipo de sexualidade que se espera dele. Conforme Diego Irrarazaval: “Uma sexualidade hegemônica masculina é violenta e competitiva; deve ser demonstrada de forma quase obsessiva; está centrada no pênis; é homofóbica e intolerante com relação aos homossexuais; é irresponsável”. 11 No entanto, as discussões de gênero centram-se na reflexão sobre a sexualidade normativa, sem aprofundar o debate a partir da experiência concreta de muitos homens e muitas mulheres, talvez a maioria deles e delas, que não se encaixam nesta norma. Além disso, não estabelecem suficientemente a relação entre os papéis gênero e a vivência da sexualidade.
As reflexões sobre gênero, se desvinculadas das reflexões sobre sexualidade desenvolvidas no âmbito dos Estudos Gays e Lésbicos e da Teoria Queer, correm o risco de criar outras identidades estáticas, pretensamente libertas, quando ainda excluem uma multiplicidade de possibilidades, tanto com relação ao próprio papel social desempenhado por homens e mulheres, quanto pela vivência do seu desejo expresso através da sexualidade.
Corporeidade – Onde sexo, gênero e sexualidade se encontram
O que sexo, gênero e sexualidade têm em comum, assim como com todas as outras características que compõem as identidades dos seres humanos, é que elas são significadas em nossos corpos. O termo “corporeidade”, não se refere apenas ao corpo humano como conjunto de órgãos e partes, mas ao ser humano enquanto presença corporal e a sua relacionalidade consigo mesmo, com outras pessoas, com a natureza e com a divindade. É a forma como existimos e damos significado à nossa existência. Neste sentido, o corpo é a “superfície de inscrição de valores” tanto sociais quanto sexuais. Os papéis de gênero são construídos sobre os corpos com sua constituição físico-biológica única e vivenciados através de uma sexualidade específica.
Tradicionalmente a relação entre estes três elementos que fazem parte do processo de construção da identidade têm sido definida como uma seqüência lógica onde, a um sexo físico-biológico corresponde um determinado comportamento de gênero e uma maneira específica de vivência da sexualidade. Conforme G. L. Louro: “A coerência e a continuidade supostas entre sexo-gênero-sexualidade servem para sustentar a normatização da vida dos indivíduos e das sociedades”. 12 A Teoria Queer, ao abrir-se para possibilidades múltiplas de relação entre estes três aspectos rompe com esta lógica, reconhecendo a vivência de formas alternativas. Abordar o tema da corporeidade desde a Teoria Queer permite desconstruir estereótipos de gênero e sexuais, utilizando o corpo e suas experiências subversivas como paradigma hermenêutico.
Alguns modelos de corporeidade queer nos ajudam a perceber as limitações de nossas análises de gênero quando desvinculadas da reflexão sobre a sexualidade em suas múltiplas e inúmeras manifestações. Guacira Lopes Louro menciona o exemplo da drag queen que explicitamente fabrica o seu corpo e, segundo a autora:
...repete e subverte o feminino, utilizando e salientado os códigos culturais que marcam esse gênero. (...) Sua figura insólita ajuda a lembrar que as formas como nos apresentamos como sujeitos de gênero e de sexualidade são, sempre, formas inventadas e sancionadas pelas circunstâncias culturais em que vivemos. 13
Em outro texto 14, além de fazer referência às drag queens, trabalhei com o exemplo de travestis, strippers e transformistas, para propor a “corporeidade” como paradigma hermenêutico capaz de ajudar na desconstrução de modelos engessados de vivência de gênero e sexualidade construídos e codificados nos corpos. Enquanto questrippers buscam ressaltar as formas consideradas masculinas para despertar o desejo, transformistas constroem em seu corpo masculino uma figura feminina ideal, subvertendo as prescrições de seu sexo e gênero, e travestis utilizam ainda medicamentos e cirurgias construindo seu corpo e uma determinada vivência da sexualidade. Todas estas pessoas constroem seu corpo, em situações e por motivos diversos, atribuindo-lhe significados que misturam sexo, gênero e sexualidade fora do paradigma heterocêntrico.
O exemplo de construção de sexo, gênero e sexualidade descrito no início deste texto apresenta uma pessoa que nasceu com características físico-biológicas femininas, fez cirurgia de adaptação de sexo e se identifica como um homem gay. Dentro de uma perspectiva heterocêntrica poder-se-ia inferir que, se esta pessoa sentia atração erótico-sexual por outros homens, melhor se permanecesse com uma construção físico-biológica feminina. Isto também evidencia o fato de que até a linguagem, por heterocêntrica, é limitada para expressar esta realidade. Neste caso, no entanto, sexo, gênero e sexualidade se misturam de uma maneira surpreendente para quem está acostumado a um padrão único de relação entre estes aspectos da vida humana e exigem novas formulações. Pois, quando sexo, gênero e sexualidade se encontram, as possibilidades são múltiplas.
Falando da produção teórica no campo da Teologia nos últimos 40 anos, Peter T. Nash afirma que:
De alguma maneira, os grandes Pais da Teologia desde o primeiro século até a metade do século XX são apresentados como tendo praticado a sua arte sem nenhum contexto social e, então, subitamente, asiáticos, mulheres, negros, gays e latino-americanos começaram a infectar a pureza teológica com seus corpos e suas perguntas e afirmações em torno do corpo. 15
É meu desejo e o nosso trabalho fazer com que esta infecção se generalize, em todos os campos de construção de saber e prática social, permitindo cada vez mais encontros entre sexo, gênero e sexualidade, já que a vida está cheia deles, mesmo quando os padrões e as normas querem domesticar os corpos e limitar as possibilidades de expressão do desejo humano.

Gênero e sexualidade

http://pt.slideshare.net/Maridezonne/sexualidade-e-gnero

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Educação e docência: diversidade, gênero e sexualidade.

Guacira Lopes LouroProfessora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Resumo
Minha proposta é compartilhar e discutir com vocês algumas reflexões. Entendo que esse trabalho não é apenas teórico, mas é também político. As questões em torno dos gêneros e das sexualidades não envolvem apenas conhecimento ou informação, mas envolvem valores e um posicionamento político diante da multiplicidade de formas de viver e de ser. Como a escola tem lidado com tudo isso? Como nós, professoras e professores, nos vemos diante dessas questões? Quais são nossos pontos de apoio e onde se encontram nossas fragilidades e receios?

Introdução
O tema “gênero e sexualidade” geralmente nos fascina, nos provoca curiosidade e está por toda parte. Falar sobre prazer, desejo e amor pode ser ótimo e discutir como se experimentam todas essas coisas quando se é uma mulher ou um homem, quer dizer, discutir se há distinções e aproximações nas experiências ou nas vidas dos sujeitos masculinos e femininos também costuma provocar discussões acaloradas e instigantes; mas, quando temos de encarar esses temas em nossa posição de educadoras e educadores, as coisas parecem se complicar.
Há muito tempo venho estudando e trabalhando com essas questões. Por certo, não faço esse trabalho sozinha, mas juntamente com muitos parceiros e parceiras: com meus colegas do GEERGE (Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero), com estudantes do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS, com muitos outros colegas e estudantes dos vários grupos e núcleos de estudo que se espalham pelo Brasil e pelo exterior, e com tantas professoras e professores como vocês com quem tenho tido oportunidade de dialogar. Tenho consciência, portanto, de que essas questões são muito importantes para quem trabalha no campo da Educação, muito especialmente para quem lida, cotidianamente, com crianças e adolescentes, para quem se vê desafiado a acolher e dar algum encaminhamento às dúvidas, às perguntas e às situações que essas crianças e jovens constantemente nos colocam oportunidade de dialogar. Tenho consciência, portanto, de que essas questões são muito importantes para quem trabalha no campo da Educação, muito especialmente para quem lida, cotidianamente, com crianças e adolescentes, para quem se vê desafiado a acolher e dar algum encaminhamento às dúvidas, às perguntas e às situações que essas crianças e jovens constantemente nos colocam.
São muitas as possibilidades de encaminhar uma discussão dessas questões. Apresento a seguir quatro pontos ou aspectos que poderão, mais adiante, ser desenvolvidos ou ampliados.
Em primeiro lugar, parece importante esclarecer como estou compreendendo os dois conceitos centrais desta fala: gênero e sexualidade. Repetidos por todo mundo, nas mais diferentes situações, nas práticas cotidianas, na mídia, na escola, etc., muitas vezes esses termos aparecem juntos, numa indicação de que são dimensões da vida extremamente articuladas. Concordo com isso, mas acho que se pode dizer que entre gênero e sexualidade, mais do que articulações há, muitas vezes, embaralhamentos, misturas, confusões. Não me refiro apenas a indistinções conceituais, como aquelas que alimentam os debates acadêmicos, mas me refiro, talvez de modo mais candente, às indistinções do senso comum – como a noção de que é um “sujeito gay não passa, ao fim e ao cabo, de uma mulherzinha” ou a noção de que é “impossível ser feminina e lésbica” –, noções que acabam por se naturalizar de tal modo que se tornam quase imperceptíveis. Essas noções estão muito arraigadas em nossa cultura e lidamos com elas constantemente em nossas escolas, na nossa família ou, até mesmo, dentro de nós. As consequências políticas de noções desse tipo são demasiadamente importantes para que possam ser desprezadas. Por isso, antes de mais nada, parece-me que vale a pena deixar clara a perspectiva que informa minha fala.
Há muito que estudiosas feministas procuram demonstrar a especificidade e, consequentemente, a distinção entre gênero e sexualidade e, ao mesmo tempo, sua estreita articulação. Entre essas estudiosas, o conceito de gênero surgiu pela necessidade de acentuar o caráter eminentemente social das diferenças percebidas entre os sexos. Apontava para a impossibilidade de se ancorar no sexo (tomado de modo estreito como características físicas ou biológicas dos corpos) as diferenças e desigualdades que as mulheres experimentavam em relação aos homens. O conceito levava a afirmar que tornar-se feminina supõe uma construção, uma fabricação ou um aprendizado que acontece no âmbito da cultura, com especificidades de cada cultura. Portanto, as marcas da feminilidade são sempre diferentes de uma cultura para outra; essas marcas se transformam, são provisórias. Inscrevê-las num corpo supõe, também, lidar com as marcas distintivas do seu outro, a masculinidade. Percebe-se, então, que ao falar de gênero estamos nos referindo a feminilidades e a masculinidades (sempre no plural). A potencialidade do conceito talvez resida exatamente nesta noção, a de que se trata de uma construção cultural contínua, sempre inconclusa e relacional.
Apesar de algumas resistências, essas ideias já vêm sendo admitidas por muitos. Mas as coisas costumam se complicar um pouco mais quando se trata da sexualidade. Inúmeras pesquisadoras e pesquisadores comentam o quanto parece ser difícil admitir que a sexualidade também é construída culturalmente.
A dificuldade parece residir no fato de que, usualmente, se associa (às vezes até se reduz) a sexualidade à natureza ou à biologia. E, quando se assume este modo de pensar, frequentemente, se supõe que a natureza e a biologia constituem uma espécie de domínio à parte, alguma coisa que ficaria fora da cultura. Contrariando essa posição, é interessante lembrar Jeffrey Weeks (1999), um destacado estudioso, que afirma que “as possibilidades eróticas do animal humano, sua capacidade de ternura, intimidade e prazer nunca podem ser expressadas ‘espontaneamente’, sem transformações muito complexas”. E as transformações a que Weeks se refere podem ser entendidas como a linguagem, os jeitos, os códigos, enfim, todos os recursos que usamos para expressar nossos desejos. É inegável que a forma como vivemos nossos prazeres e desejos, os arranjos, jogos e parcerias que inventamos para pôr em prática esses desejos envolvem corpos, linguagens, gestos, rituais que, efetivamente, são produzidos, marcados e feitos na cultura.

Guacira Lopes Louro

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fonte- http://formacaodocente.autenticaeditora.com.br/artigo/exibir/9/30/1 

Relações de gênero – um tema que não pode ficar fora da sala de aula.

Homens que se relacionam com muitas mulheres são “garanhões”.
Mulheres que se relacionam com muitos homens são “fáceis”.
Homens não choram.
Mulheres são menos eficientes



Como seus alunos percebem os papéis que os homens e as mulheres desempenham na sociedade? A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou em Nova York a campanha HeForShe (ElePorEla), um movimento para promover a igualdade de gênero e nomeou a atriz Emma Watson, que ficou famosa ao viver a personagem Hermione na franquia Harry Potter, como embaixadora da boa vontade.
Em seu discurso, ela prega o reconhecimento dos direitos e da autonomia da mulher. “Acho certo que me paguem o mesmo tanto que os meus colegas do sexo masculino recebem… Que mulheres estejam envolvidas nas políticas e tomadas de decisão de seu país… Que eu seja capaz de tomar decisões sobre o meu próprio corpo… E que socialmente eu receba o mesmo respeito que os homens.”
Assista ao discurso da atriz na íntegra:
Como ela diz, nenhum país do mundo pode dizer que alcançou a igualdade de gênero. E eu completo: alguns países estão muito distantes disso, como o Paquistão, em que milícias extremistas tentam impedir as meninas de estudarem e até tentam assassiná-las por isso, como foi o caso da Malala, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. O Irã também foi manchete nos jornais dessa semana com o caso absurdo da advogada que foi presa e condenada a um ano de prisão por querer assistir a um jogo de vôlei.
O que não se noticia e a gente não percebe é que o descompasso entre gêneros, que produz tanta violência, é construído no dia a dia, durante todo o desenvolvimento de meninos e meninas, como parte daquilo que chamamos de Educação Sexual.
Ser Homem ou Mulher
A natureza não define o gênero de uma pessoa, apenas o sexo: nascemos do sexo masculino ou feminino. As crianças não nascem acompanhadas de uma “bula da natureza” que mostra como homens e mulheres devem se portar: isso é aprendido e estabelecido nas relações sociais e varia de acordo com a cultura, valores e conceitos. Logo depois que um indivíduo nasce, inicia-se um longo processo social que influencia a construção de sua identidade, do seu papel sexual e de como se porta nas relações entre os sexos. A absorção desses estereótipos de gênero depende de como cada um aprende, entende e interpreta seus direitos e deveres em relação a si mesmo, ao outro e ao seu grupo social. E isso é uma questão de cidadania de que a escola participa ativamente, seja de forma intencional e sistematizada, seja no simples fato de transmitir, por meio do vínculo que criam com os alunos, valores, crenças e atitudes dos seus profissionais.
Sugestão de como trabalhar a relação de gênero
Trabalhar a relação de gênero significa educar sexualmente meninas e meninos dentro de uma perspectiva de igualdade de relações e direitos. Independentemente do sexo, homens e mulheres podem ser fortes e fracos, emotivos e racionais, autônomos e dependentes, inteligentes e capazes. Os sujeitos são constituídos de acordo com suas experiências em função de sua história e cultura e não como um fato da natureza humana.
Durante a infância isso pode ser trabalhado nas histórias que são contadas para as crianças, nas brincadeiras adotadas pela escola, na igualdade de oportunidades, nas atividades desenvolvidas em sala de aula, e principalmente, pela tomada de consciência do professor sobre as suas atitudes e valores em relação ao sexo feminino e masculino. Os educadores precisam rever seus conceitos e sua atuação junto às crianças, para não passar adiante modelos que contribuem para o descompasso entre os gêneros. As historinhas infantis mostram que a submissão de uma princesa é motivo para o príncipe se apaixonar por ela? Os meninos são recriminados quando choram ou ficam tristes? Apenas as meninas são chamadas para ajudar a professora, por serem naturalmente mais “organizadas” e “prendadas”? Essas são algumas reflexões que educadores precisam fazer  para avaliar se sua postura em sala está reforçando estereótipos.
Na adolescência, as atitudes do dia a dia e a postura do professor também são muito importantes. Mas se na sua escola você dispõe da oportunidade de falar sobre gênero com seus alunos, esse é um excelente tema para se trabalhar. Para isso, é fundamental desenvolver uma atividade dinâmica em que os jovens possam expressar suas ideias, refletir sobre elas e desenvolver uma postura ética sobre as desigualdades sociais entre homens e mulheres. Uma boa sugestão é usar a dinâmica que trabalha as vantagens e desvantagens de ser homem ou mulher na nossa sociedade.

Fonte:
http://revistaescola.abril.com.br/blogs/educacao-sexual/